Grandes Paixões

 

                                                                      

  

       Eurico, o Presbítero e Hermengarda

de Alexandre Herculano

O romance "Eurico, o Presbítero", conta a triste história de amor entre Hermengarda e Eurico. A história passa-se no início do séc. VIII na Espanha visigótica. Eurico e Teodomiro são amigos e lutam junto com Vitiza (imperador da Espanha) contra os "montanheses rebeldes e contra os francos, seus aliados". Depois desse bem sucedido combate, Eurico pede ao Duque a mão de sua filha, Hermengarda, em casamento. No entanto, Fávila ao saber da intenção de Eurico e, sabendo ainda que esse era um homem de origem humilde, recusa o pedido de Eurico.

Então Eurico, desiludido, toma para si a responsabilidade do combate ao avanço árabe. Transforma-se no cavaleiro Negro, luta de maneira heróica para defender aquelas terras. Devido a seu ímpeto, ganha a admiração dos Godos e dá-lhes força para combater os invasores.

Quando o domínio da batalha parece inclinar-se para os Godos, Sisibuto e Ebas, os filhos do Imperador Vitiza, traem o povo Godo com a intenção de assumir o trono. Assim o domínio do combate volta a ser árabe. Logo em seguida, Roderico, rei dos Godos, morre no campo de batalha e Teodomiro passa a liderar o povo.

Nesse meio tempo, os árabes atacam o Monteiro da Virgem Dolosa e raptam Hermengarda. O cavaleiro Negro e uns poucos guerreiros conseguem salvá-la quando o "amir" estava preste a profaná-la.

Durante a fuga, Hermengarda foi levada desmaiada às montanhas das Astúrias, onde Pelágio, o seu irmão, está refugiado.

Em segurança, na gruta Covadonga, Hermengarda depara-se com Eurico e, enfim, pode declarar seu amor. Eurico sabe que  esse amor jamais se poderá concretizar, devido às convicções religiosas. Eurico revela-lhe que o Presbítero, padre, de Cartéia e o Cavaleiro Negro são a mesma pessoa. Hermengarda perde a razão e Eurico, convicto e ciente das suas obrigações religiosas, parte para um combate suicida contra os árabes.     

Padre Eurico

O presbítero Eurico era o pastor da pobre paróquia de Cartéia. Descendente de uma antiga família bárbara, vivera os ligeiros dias da mocidade no meio dos deleites da opulenta Tolerem. O amor viera, apesar disso, quebrar a cadeia brilhante da sua felicidade.  O orgulhoso Fávila não consentira que o menos nobre pusesse tão alto a mira dos seus desejos. Depois de mil provas de um afecto imenso, de uma paixão ardente, o moço guerreiro vira submergir todas as suas esperanças. Eurico era uma destas almas ricas de sublime poesia a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendê-las. Desventurado, o seu coração de fogo queimou-lhe o voço da existência ao despertar dos sonhos do amor que o tinham embalado.

A ingratidão de Hermengarda, que parecera ceder sem resistência à vontade de seu pai, e o orgulho insultuoso do velho deram em terra com aquele ânimo, que o aspecto da morte não seria capaz de abater. A melancolia que o devorava, consumindo-lhe as forças, fê-lo cair em longa e perigosa enfermidade. Uma destas revoluções morais que as grandes crises produzem no espírito humano se operou então no moço Eurico. Educado na crença viva daqueles tempos; naturalmente religioso, foi procurar abrigo e consolação aos pés d'Aquele cujos braços estão sempre abertos para receber o desgraçado que neles vai buscar o derradeiro refúgio. Assim, terminadas as grandezas cortesãs, encontrara a morte do espírito, o desengano do mundo. Ao cabo da estreita senda da cruz acharia ele, porventura a vida e o repouso íntimos? Era este problema, no qual se resumia todo o seu futuro, que tentava resolver o pastor do pobre presbitério da velha cidade do Calpe.

Depois de passar pelos diferentes graus do sacerdócio, Eurico recebera ainda o encargo de pastorear esse diminuto rebanho da povoação fenícia. O moço presbítero, legando à catedral uma porção dos senhorios que herdara juntamente com a espada conquistada de seus avós, havia reservado apenas uma parte das próprias riquezas. Era esta a herança dos miseráveis, que ele sabia não escassearam na quase solitária e meia arruinada Cartéia. A nova existência de Eurico tinha modificado, porém não destruído, o seu brilhante carácter. A maior das humanas desventuras, a viuvez do espírito, abrandara, pela melancolia, as impetuosas paixões do mancebo e apagara nos seus lábios o riso do contentamento, mas não pudera desvanecer no coração do sacerdote os generosos afectos do guerreiro, nem as inspirações do poeta. O tempo havia santificado aqueles, moldando-os pelo evangelho, e tornado estas mais solenes, alimentando-as com as imagens e sentimentos sublimes estampados nas páginas sacrossantas da Bíblia. O entusiasmo e o amor tinham ressurgido naquele coração que parecera morto, mas transformados: o entusiasmo em entusiasmo pela virtude; o amor em amor pelos homens. E a esperança? Oh! A esperança, essa é que não renascera

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