Grandes Paixões

 

                                                                      

      

        Adamastor e Tétis

Cinco dias depois da paragem na Baia de Santa Helena, chega Vasco da Gama ao cabo das tormentas e é surpreendido por uma nuvem negra "tão temerosa e carregada" que pôs nos corações dos portugueses um grande «medo» e leva Vasco da Gama a invocar o próprio Deus todo-poderoso; foi o aparecimento do gigante Adamastor, uma figura mitológica criada por Camões para significar todos os perigos, as tempestades, os naufrágios e «perdição de toda sorte» que os portugueses tiveram de enfrentar e transpor na sua viagem. O gigante é caracterizado directa e fisicamente com uma adjectivação abundante, é uma figura aterradora, provocando terror e estupefacção em Vasco da Gama e nos seus companheiros. Com humildade Vasco da Gama interroga o gigante, perguntando-lhe simplesmente « QUEM ÉS TU ?»

Até os gigantes têm os seus pontos fracos!

Este, que o Gama enfrenta, é também uma vítima do amor não correspondido, e a questão do Gama leva o gigante a contar a sua história sobre o amor fracassado.

Apaixonara-se pela bela Tétis que o rejeita pela «grandeza feia», então Adamastor decide «tomá-la por armas» e revela o seu intuito a Dóris, mãe de Tétis, que serve de intermediária para evitar a contenda. A resposta de Tétis é ambígua, mas ele acredita na noite «prometida».Doido de amor, julgando por entre a névoa a aproximação da amada, acreditando apertar o lindo corpo e beijar os olhos belos, as faces e os cabelos, acha-se na realidade abraçado com um duro monte de «áspero manto e de espessura brava» “ junto de um penedo se transforma o gigante noutro penedo e ficou rodeado pela sua amada Tétis, o mar, sem lhe poder tocar e a conseguir apertar e beijar como sempre desejara.

O discurso do gigante divide-se em duas partes, divisão esta efectuada pela intervenção de Vasco da Gama. Compreende, na primeira parte, um carácter profético e ameaçador num tom de voz "horrendo e grosso", anunciando os castigos e os danos por si reservados  para aquela «gente ousada» que invadira os seus «vedados términos nunca arados de estranho ou próprio lenho».

Na segunda parte do discurso, Adamastor conta o seu passado amoroso e infeliz.

O gigante Adamastor diz ainda que as naus portuguesas terão sempre inimiga aquela paragem através de «naufrágios, perdições de toda a sorte, que o menor mal de todos seja a morte», a fazer lembrar as palavras proféticas do velho do Restelo, figura de “ Os Lusíadas”.

Após o seu desabafo junto dos lusitanos, a nuvem negra «tão temerosa e carregada» desaparece e Vasco da Gama pede a Deus que remova «os duros casos que Adamastor contou futuros».

Este episódio é importante, pois nele se concentram as grandes linhas da epopeia:

O real Maravilhoso (dificuldades na passagem do cabo)

A existência de profecias (história de Portugal).

Lirismos (história de amor a que irá ligar-se, mais tarde, à narração da Ilha dos Amores.

     É um episódio simbólico, trágico, de amor e morte.

 

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