" A língua é ou faz parte do aparelho ideológico, comunicativo e estético da sociedade que a própria língua define e individualiza."

                                                                                                                        (Leonor Buescu)

Vamos abordar a língua portuguesa sob o ponto de vista histórico, observando a mudança linguística relacionada com um processo mais amplo de modificação sociocultural de um povo. Tomando como ponto de partida a variação inerente a todo o sistema linguístico, procurar-se-á demonstrar como variação e mudança são dois processos intimamente relacionados.
Considerando que uma língua não se realiza uniformemente em todo o território em que é usada e apresenta variedades de ordem geográfica, social, etária, profissional, situacional, podemos concluir que a variação histórica é decorrência natural desse processo de diferenciação. Assim, o conceito de mudança linguística deve ser encarado como resultado de uma gama de variedades, presentes sempre e em todas as circunstâncias de uso de determinada língua. Essa conceção contraria uma visão purista que considera o uso não culto de uma língua como responsável pela sua deterioração e esfacelamento.
Nesta perspetiva, abordaremos o português no contexto das línguas românicas (francês, espanhol, italiano, entre outras), que constituem a continuação do latim, língua do Império Romano.
O conhecimento das condições linguísticas e extralinguísticas que caracterizam a história da língua portuguesa é de grande utilidade para o ensino, por permitir compreender o dinamismo da linguagem -- a história de uma língua está invariavelmente ligada à história do seu povo, aos acontecimentos de natureza política e social.

A língua portuguesa é uma das cinco línguas mais faladas no mundo -- cerca de 180 milhões de indivíduos utilizam-na como língua materna. É a língua nacional de Portugal (incluindo Açores e Madeira ) e do Brasil, a língua oficial de vários países africanos -- Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe -- onde convive com múltiplas línguas nacionais, e ainda sobrevive na Ásia -- Macau e Goa -- e na Oceânia -- Timor -- como língua de grupos minoritários.
A língua portuguesa pertence ao grupo das línguas românicas, ou neolatinas, e teve a sua origem no latim falado, levado para a Península Ibérica por volta do século II a.C., como consequência das conquistas políticas do Império Romano. Originado no Lácio, na Itália Antiga, o latim expandiu-se por quase todo o mundo conhecido devido ao espírito de organização e domínio bélico e político-cultural de Roma.

Sob o ponto de vista dos acontecimentos sociais e sua repercussão, da expansão territorial e do contacto com outras línguas, a história das línguas românicas é constituída por dois momentos fundamentais: a romanização, em que as forças de unificação predominam sobre as de dispersão e a fragmentação, em que se observa o predomínio da diversificação sobre a concentração. Esses dois movimentos representam forças distintas que atuam no processo de variação e mudança linguística: uma força centrípeta, da conservação, da unificação (normalmente exercida pelas instituições e mecanismos sociais de poder) e uma força centrífuga, de inovação, de diversificação ( impulsionada pelas mudanças culturais, pelo uso quotidiano e pela interação com outras culturas). Na origem do português, a romanização é consequência da força política de Roma no processo de expansão do seu Império, e a fragmentação  realiza-se no fracionamento da România, como decorrência das invasões dos bárbaros, do seccionamento das províncias e da perda progressiva do poder romano sobre as regiões conquistadas.

O Império Romano teve como origem o povo que habitava a região do antigo Lácio e que tinha como língua o latim. Esse povo, de instinto guerreiro e grande tino político, criou, a partir do século IV, um Império que atingiu três continentes – Europa, Ásia e África, compreendendo conquistas como a da Sicília, da Sardenha, da Península Ibérica, das Gálias, de Cartago, da África, da Macedónia, da Grécia, da Bretanha, da Dácia e da Mesopotâmia. No início da era cristã, o Império Romano atingiu o apogeu de sua expansão.
Com a expansão do Império, os romanos impuseram a sua cultura -- língua, hábitos, valores – a todos os povos conquistados. E esse foi um dos factores decisivos da hegemonia política e cultural que garantiu a implantação do latim falado como língua geral.
Nesse processo, os romanos receberam influências dos povos conquistados, principalmente os gregos, que já se encontravam num estágio muito adiantado de elaboração cultural e artística. No caso específico do latim escrito, foi grande a influência grega, tanto na língua literária – com as obras de Vergílio e Cícero -- como no padrão gramatical – a gramática greco-latina.

A rigorosa disciplina gramatical dessa língua literária distanciava-a da realidade da língua falada, altamente diferenciada em função da diversidade de etnias e de culturas que compunham o Império. Como língua escrita, era privilégio apenas de uma elite, o que leva alguns autores a afirmar, erroneamente, que esse padrão escrito correspondia à língua utilizada, no dia-a-dia, por essa classe social.
Para compreender a grande variedade do latim, é preciso entender como era constituída a sociedade romana.
A organização social de Roma compreendia uma classe aristocrática (os patrícios), elite conservadora caracterizada pela educação e por costumes refinados. Essa classe dos patrícios separava-se da classe dos plebeus, formada pela população rural, pelos estrangeiros e por escravos libertos. Eram classes sociais muito diversificadas, e as variadas modalidades da língua dos romanos chegaram-nos sob as diversas denominações - sermo quotidianus, sermo urbanus, sermo plebeius, sermo militaris, sermo rusticus... Todas essas variedades se resumiam no inovador sermo vulgaris (
ou latim vulgar, como é comumente chamado) - língua falada por todas as camadas da população.
Conforme Ilari (1997), essas "variedades refletem duas culturas que conviveram em Roma: de um lado, a de uma sociedade fechada, conservadora e aristocrática, cujo primeiro núcleo seria constituído pelo patriciado; de outro, a de uma classe social aberta a todas as influências, sempre acrescida de elementos alienígenas, a partir do primitivo núcleo da plebe."   
É preciso examinar com cuidado a expressão latim vulgar. O adjetivo vulgar tem sido empregado com vários sentidos. No sentido de corriqueiro, sem conotação pejorativa, referindo-se à língua falada em situações informais, pela população romana (incluindo a aristocracia); tem sido também usado no sentido de língua popular, derivado de vulgo, "povo"; e, finalmente, no sentido depreciativo de vulgarismo, isto é, uso linguístico condenável, sob o ponto de vista purista conservador.
Esse último entendimento é claramente equivocado, embora tenha sido, durante muito tempo, a orientação corrente entre os romanistas. Faz parte de uma visão superada de mudança, que se apoia nos princípios de deterioração linguística (como se o latim vulgar fosse uma corrupção do latim clássico); de língua morta, (como se o latim, atualmente, fosse uma língua morta); de evolução cronológica (como se o latim vulgar tivesse sucedido ao latim clássico).
Faz-se, normalmente, uma distinção entre latim vulgar e latim clássico. A expressão latim clássico deve ser entendida como a língua literária e a língua escrita em situação formal. Mattoso Câmara informa: "Estava sujeito a uma disciplina rigorosa e era tema de atenção por parte dos intelectuais e, mais particularmente, dos gramáticos, que se inspiraram na gramaticologia grega. Como uso refletido e aprendido, resistia às forças evolutivas da língua, cingia-se a um padrão escrito, que procurava ser imutável, e prestava-se mal para a vida social corrente, quotidiana" ( Mattoso Câmara, 1979, p. 20)
Já o chamado latim vulgar, na verdade, diz respeito à língua viva, usada por todas as camadas da população romana, e portanto muito diversificada. E é exactamente nessa língua inovadora que têm início a nossa e as outras línguas românicas.
Segundo Mattoso Câmara (1979), "é justo dizer que as línguas românicas provêm do latim vulgar, no sentido relativo de que resultaram de um latim dinâmico, essencialmente de língua oral, em processo de perene evolução. Elementos do latim clássico, que estão nas origens românicas, são os que se integraram no processo evolutivo, fazendo-se vulgares."
 

O processo de fragmentação linguística do Império Romano, responsável pela formação das diversas línguas românicas -- português, francês, espanhol, italiano e romeno, principalmente -- deve ser observado sob o ponto de vista linguístico e político-social.
O latim falado nas diferentes regiões do Império Romano tinha uma realidade tão diversificada que, no século III da nossa era, a unidade linguística do império já não  existia. Essa imensa diferenciação dialetal é uma das principais causas da transformação do latim nas línguas românicas.

A respeito do processo de dialectação, Mattoso Câmara afirma: "A diferenciação dialetal explica-se, sempre, em parte, pela história cultural e política e pelos movimentos de população e, por outra, pelas próprias forças centrífugas da linguagem humana, que tendem a cristalizar as variações e criar dialetos em qualquer território, relativamente amplo, e na medida direta do maior ou menor isolamento das áreas regionais em referência ao centro linguístico irradiador"(Mattoso Câmara, 1979)


Várias causas de carácter político-cultural são apontadas por Mattoso Câmara para a diversificação linguística da România:


o fator cronológico - as regiões foram romanizadas em momentos diferentes, recebendo, portanto, o latim em diversos momentos de sua evolução;
o contacto entre a cultura romana e as diferentes culturas dos povos conquistados;
a grande diversidade socioeconómica das regiões conquistadas;


Contribuíram para acelerar o processo de fragmentação linguística os seguintes factos históricos:


o edito de Caracala - que estabeleceu o direito de cidadania aos indivíduos livres do Império, resultando perda de privilégios para Roma (212);
a descentralização política e administrativa do Império - com a criação de doze dioceses, Roma perde o poder de ditar a norma linguística;
a mudança da sede do Império para Bizâncio (330);
a divisão do Império Romano, provocada pela morte de Teodósio (395), em Império do Oriente e Império do Ocidente (este não resiste às inúmeras invasões).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

                                        A formação do Português

Alguns factos históricos repercutiram-se na formação da Língua Portuguesa:

 

            a conquista romana da Península Ibérica, a invasão dos bárbaros germanos,

            a constituição dos impérios bárbaros, como o visigótico,

            o domínio árabe na Península,

            a luta da reconquista cristã,

            a formação do reino de Portugal e a expansão ultramarina.


A România compreendia o conjunto de províncias do Império Romano onde o latim veio a tornar-se a língua de civilização:

 

        as Gálias ( França e parte da Bélgica atuais),

        a Península Ibérica ou Hispânica,

        a Líbia, ou litoral mediterrânico da África,

        a Dácia, nos Balcãs ( Roménia atual).


A implantação do latim na Península Ibérica constitui fator decisivo para a formação da língua portuguesa, e ocorre no século II a.C., quando as legiões de Roma, depois de longas lutas, conquistam a Hispânia ( mapa da Península Ibérica no século III a.C.) e impõem a sua civilização. Com exceção dos bascos, todos os povos da Península adoptaram o latim como língua e se cristianizaram. O território da Península Ibérica ( século I a.C. ) foi dividido, inicialmente, em duas grandes províncias, Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior. Esta última sofreu nova divisão em duas outras províncias, a Bética e a Lusitânia, onde se estendia uma antiga província romana, a Gallaecia.
A romanização da Península não se deu de maneira uniforme, mas pouco a pouco o latim foi-se impondo, fazendo praticamente desaparecer as línguas nativas. Os povos que habitavam a Península eram numerosos e apresentavam língua e cultura bastante diversificadas. Havia duas camadas de população muito diferenciadas: a mais antiga - Ibérica - e outra mais recente - os Celtas, que tinham o seu centro de expansão nas Gálias. Muito pouco se conservou das línguas pré-romanas. Há resquícios apenas na área do vocabulário.
Quando se deu a queda do Império Romano, a Península Ibérica estava totalmente latinizada ( no século I d.C.). Nesse quadro de mistura étnica, o latim apresentava feições particulares, mesclado de elementos celtas e ibéricos, basicamente no vocabulário.

 

Por volta do século V, a Península sofreu invasão de povos bárbaros germanos - suevos, vândalos, alanos e visigodos. Com o domínio visigótico, (mapa da Europa do século V ) a unidade romana rompe-se totalmente. Os visigodos romanizaram-se: fundiram-se com a população românica, adotaram o cristianismo como religião e assimilaram o latim vulgar. Rodrigo, o último rei godo, lutou até 711 contra a invasão árabe, defendendo a religião cristã, tendo como língua o latim vulgar na sua feição hispano-românica.


O século V marca o início do Romanço-- período que se estende até ao começo do século IX, em que ocorre a grande diferenciação do latim numa multiplicidade de falares. Trata-se de uma fase de transição, que resulta no aparecimento de textos escritos nas diversas línguas românicas. Dentre esses falares intermédios, é o romanço Lusitânico bastante inovador o que nos interessa principalmente.


No século VIII, os povos muçulmanos invadiram a Península Ibérica . Compreendiam os árabes e os berberes e eram chamados de mouros pelos habitantes da Península, que foi totalmente dominada. O árabe era a sua língua de cultura e sua religião, o Islamismo. Tanto a língua como a religião eram muito diferentes da língua falada na região e não houve imposição de uma ou outra. A língua árabe era a oficial, mas o latim, já bastante diferenciado, era a língua de uso.
Extremamente diversificado, o latim continuou a evoluir entre a população submetida. Como resultado da interpenetração da língua árabe e da língua popular de estrutura românica, o moçárabe era falado pela população cristã que viveu sob o domínio árabe.

Nas montanhas das Astúrias (norte da Península) tem início, então, a Reconquista Cristã - guerra militar e santa, abençoada pela Igreja e que provocou importantes movimentos de populações. Partindo de um núcleo de resistência (restos dos exércitos hispano-visigóticos e cristãos rebeldes), o movimento foi alastrando para o sul, recuperando os territórios perdidos. Foi então que se formaram os reinos de Leão, Aragão, Navarra e Castela. No reinado dos reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel, encerra-se o período de dominação dos árabes, que durou sete séculos e teve o importante papel de desencadear a formação de Portugal como Estado monárquico.
Com a finalidade de libertar o território ibérico, nobres de diferentes regiões participaram da guerra santa. D. Henrique, conde de Borgonha, pelos serviços prestados, recebeu do rei de Leão e Castela o Condado Portucalense - território desmembrado da Galiza, junto ao rio Douro. A língua desse território era a mesma da Galiza. Coube a seu filho, D. Afonso Henriques, iniciar a nacionalidade portuguesa, como primeiro rei de Portugal, reconhecido por Afonso VII, rei de Leão, e pelo papa Alexandre III. Ao se separar da Galiza, Portugal vai estendendo os seus limites através de lutas contra os árabes e, com a conquista do Algarve, fixa os limites atuais de Portugal. A língua falada era o romanço galego-português, que apresentava relativa unidade e muita variedade e dá origem ao galego e ao português.

 


        *Os primeiros documentos do Português

Os três séculos passados entre a chegada dos bárbaros e a dos árabes à Península não deixaram documentos linguísticos. No entanto, é certo que o latim se transformava. Somente no século IX surge um romanço peculiar, do qual se teria constituído a língua portuguesa, em decorrência da separação do condado portucalense dos reinos de Leão e Castela.
É assim que, dos falares ibéricos ocidentais, sairá o galego-português -- cujos primeiros textos escritos aparecerão no século XIII - unidade linguística que conserva certa homogeneidade até início do século XIV.
Com a evolução dos dialetos românicos, definem-se três grupos linguísticos, no século XII: o galego-português, o catalão e o castelhano. Quando Portugal se separou da Galiza, falava-se galego-português em toda a região da Galiza e da jovem nação portuguesa. O português originou-se, assim, do galego-português medieval, que foi levado ao sul pela Reconquista.
No início do século XIII, surgem os primeiros textos redigidos em galego-português, empregado, em toda a Península Ibérica, como veículo das cantigas trovadorescas que ali floresceram e também em forma de prosa, em documentos. Com a independência de Portugal, fatores políticos, económicos e sociais determinaram a quebra da relativa unidade linguística galego-portuguesa. Já separado do galego por uma fronteira política, o português, bastante diferenciado dos outros falares da região, seguiu o seu curso, tornando-se a língua de Portugal, cuja capital é Lisboa. É então que tem início a fase histórica do português, com a constituição da nova nacionalidade.
Na segunda metade do século XIII, Portugal firmou definitivamente o seu território, com a conquista do Algarve aos mouros. Por esta época, a língua portuguesa já apresentava uma língua literária, em face do catalão e do castelhano. Era a língua poética, segundo Mattoso Câmara, "um tanto convencional, cheia de galeguismos e mesmo provençalismos. Não representa fielmente a língua comum que realmente vigorava no território português. É a essa língua poética que cabe a denominação de galego-português." A prosa literária e a língua escrita corrente já foram mais tardias e tiveram de substituir o latim comummente usado nos textos escritos.
É na base da língua escrita que se costuma considerar, para o português, o período arcaico (até o século XV) e o período moderno. Dentro deste, os séculos XVI e XVII constituem o período clássico, os posteriores, o pós-clássico. E, como acrescenta Mattoso Câmara, "Mesmo, entretanto, do ponto de vista do português oral comum, ou língua nacional em sentido amplo, há diferenças gramaticais nítidas entre os séculos XVI e XVII, de um lado, e, de outro lado, os séculos subsequentes."


A história do léxico português - basicamente de origem latina - reflete a história da língua portuguesa e os contactos dos seus falantes com as mais diversificadas realidades linguísticas, a partir do romanço lusitânico. Esse acervo apresenta um núcleo de base latina popular (resultante da assimilação e das transformações do latim pelas populações nativas ibéricas), complementado por contribuições pré-românicas e pós-românicas ( de substrato, em que a população conquistada absorve a língua dos dominadores; de superstrato, em que os dominadores adotam a língua dos dominados; e de adstrato, em que as línguas coexistem, podendo haver até um bilinguismo). Além desse núcleo, é imensa a participação de empréstimos a outras línguas ( empréstimos culturais) e ao próprio latim (termos eruditos tomados ao latim clássico a partir do século XVI). Foram os termos populares que deram feição ao léxico português, quer na sua estrutura fonológica, quer na sua estrutura morfológica. Mesmo no caso de empréstimos de outras línguas, foi o padrão popular que determinou essas estruturas.
O vocabulário fundamental do português -- compreendendo nomes de parentesco, de animais, partes do corpo e verbos muito usuais - é formado sobretudo de palavras latinas, de base hereditária. Esse fundo românico usado na conversação diária constitui, assim, a grande camada na formação do léxico português.
 

Dentro da contribuição pré-românica (camada do substrato) , destacam-se vocábulos de origem ibérica (abóbora, barro, bezerro, cama, garra, louça, manteiga, sapo, seara); céltica (bico, cabana, aminho, camisa, cerveja, gato, légua, peça, touca); grega (farol, guitarra, microscópio, telefone, telepatia); fenícia (apenas saco, mapa, malha e mata - não havendo muita clareza quanto à sua origem).
A contribuição pós-românica (camada do superstrato) , que compreende palavras de origem germânica, relacionadas ao modo de vida de seu povo e à arte militar, ocorre no século V, época das invasões. São exemplos nomes como Rodrigo, Godofredo, guerra, elmo, trégua, arauto e verbos como esgrimir, brandir, roubar, escarnecer.
Apesar de não impor religião e língua, ao conquistarem a Península Ibérica, os árabes deixaram marcas no nosso léxico. Como camada do adstrato, as palavras de origem árabe correntes em português referem-se a nomes de plantas, de alimentos, de ofícios, de instrumentos musicais e agrícolas: alface, algodão, álcool, xarope, almôndega, alfaiate, alaúde, alicate.
Quanto aos empréstimos culturais, ou seja, os que decorrem de intercâmbio cultural, há no léxico português influências diversas de acordo com as épocas. Segundo Cunha (1970), "A incidência de palavras de empréstimo no português data da época da constituição da língua, e as diferentes contribuições para o seu léxico reproduzem os diversos passos da sua história literária e cultural".
Na época medieval, a poesia trovadoresca provençal influenciou os primeiros textos literários portugueses. Porém, muitos vocábulos provençais, correntes nas cantigas dos trovadores medievais, não se incorporaram à nossa língua. São exemplos de empréstimos provençais: balada, estandarte, refrão, jogral, segrel, trovador, vassalo...
Do século XV ao século XVIII, muitos escritores portugueses, entre eles os poetas do Cancioneiro Geral, Gil Vicente, Camões, escreviam em castelhano e português, o que se explica pelas relações literárias, políticas e comerciais entre as duas nações ibéricas. Como contribuição de empréstimos espanhóis para o léxico português, temos, entre muitas outras, palavras como bolero, castanhola, caudilho, gado, moreno, galã, pandeiro ...


O latim corrente já havia contribuído para a base do léxico português, mas foi durante o Renascimento, época em que se valorizou a cultura da Antiguidade, que as obras de escritores romanos serviram de fonte para muitos empréstimos eruditos. Por essa via, desenvolveu-se um processo de derivar palavras do latim literário, em vez de se partir do termo popular português correspondente (daí uma série de adjetivos com radical distinto do respetivo nome: ocular / olho, digital / dedo, capilar / cabelo, áureo / ouro, pluvial / chuva). Esse processo é responsável pela coexistência de raízes distintas para termos do mesmo campo semântico. Houve, também a substituição de muitos termos populares por termos eruditos ( palácio / paaço, louvar / loar, formoso / fremoso, silêncio / seenço, joelho / geolho ).
A expansão portuguesa na Ásia e na África foi mais uma fonte de empréstimos. São de origem asiática: azul, bambu, beringela, chá, jangada, leque, laranja, tafetá, tulipa, turbante ... São de origem africana: angu, batuque, berimbau, cachimbo, engambelar, marimbondo, moleque, quitanda, quitute, samba, senzala, vatapá ...
Em virtude de relações políticas, culturais, comerciais com outros países, é natural que o léxico português tenha recebido (e continue a receber) empréstimos de outras línguas modernas. Assim, incorporaram-se ao nosso léxico palavras provenientes do francês (chefe, hotel, jardim, paisagem, vitral, vitrina); do inglês (futebol, bife, córner, pudim, repórter, sanduíche, piquenique); do italiano (adágio, alegro, andante, confete, gazeta, macarrão, talharim, piano, mortadela, serenata, salame); do alemão (valsa, manequim, vermute). Nos tempos atuais, o inglês tem servido de fonte de inúmeros empréstimos, sobretudo nas áreas técnicas, o que demonstra a estreita ligação que o processo de mudança linguística tem com a história sócio-política-cultural de um povo.


A língua portuguesa foi levada ao continente africano devido à expansão colonial portuguesa. Imposta como língua do colonizador em Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, ela conviveu sempre com uma imensa diversidade de línguas nativas, que servem, efetivamente, como instrumento de comunicação na vida diária. O português constituiu-se como a língua da administração, do ensino, da imprensa e das relações com o mundo exterior.
A partir do processo de descolonização que se seguiu à revolução de 25 de Abril de 1974, as cinco repúblicas independentes estabeleceram o português como língua oficial, ao lado das inúmeras línguas tribais, de famílias linguísticas de origem africana. Oficialmente, esse "português da África" segue a norma europeia, mas no uso oral distancia-se cada vez mais, aproximando-se muito do português falado no Brasil.


Ao lado dessa situação linguística, existem inúmeras línguas crioulas. São o resultado da simplificação e da reestruturação do português, feitas por populações africanas que a adotaram por necessidade -- no caso, a questão da escravatura dos negros. Os crioulos portugueses começaram a formar-se desde os primeiros contactos entre portugueses e africanos, provavelmente no século XV. Apesar de uma base lexical comum, os crioulos africanos são, hoje, muito diferentes do português na sua organização gramatical.
 

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