Epopeias Clássicas

Homero - poeta grego

 

Poeta épico grego que viveu nos anos 900 a. C., segundo Heródoto, considerado autor das duas maiores epopeias da Humanidade - a Ilíada e a Odisseia.

Na época alexandrina levantaram-se sérias dúvidas sobre a atribuição destas duas epopeias a Homero. Considerava-se impossível que as duas obras fossem do mesmo autor. Aristarco, célebre crítico, não era dessa opinião e considerava que a Ilíada seria uma obra da juventude de Homero, enquanto que a Odisseia seria da sua velhice.

No séc. XVI quase ninguém duvidava de que fosse Homero o autor dessas geniais epopeias.

Mas no séc. XVIII, o filólogo alemão Wolf, lança de novo a dúvida e sustenta que a Ilíada e a Odisseia eram fragmentos épicos de épocas e origens várias reunidos depois segundo um plano lógico.

Várias outras teorias foram aparecendo, mas a que hoje parece prevalecer é a de que o poeta a que a tradição chama de Homero e que representa como velho e cego, é realmente o autor da Ilíada e da Odisseia, pelo menos nos seus episódios essenciais.

1- Ilíada de Homero

Uma das duas grandes epopeias atribuídas ao poeta grego Homero.

A Ilíada está ligada ao ciclo das lendas troianas. Segundo a lenda, Páris, filho de Príamo, rei de Troia, havia raptado Helena, mulher de Menelau.

Para a recuperar, os gregos, desembarcaram com as suas tropas e puseram cerco a Troia. Este cerco durou dez anos. A Ilíada, poema sobre Ílion (Troia), narra apenas um episódio deste cerco - a cólera de Aquiles.

O poema consta de XXIV cantos divididos em 5 partes (I; II-X; XI-XIV; XV-XIX; XX-XXIV):

Canto I - Durante a Guerra de Troia, Aquiles, irritado porque lhe roubaram a escrava Briseida, retira-se para o seu acampamento e decide não voltar a tomar parte no cerco.

Canto II - Os Gregos, desanimados, decidem regressar, mas Ulisses impede-os.

Canto III - Helena, do cimo das muralhas de Troia, aponta a Príamo os principais chefes gregos. Páris é salvo por Afrodite quando está na iminência de ser vencido por Menelau em combate singular.

Canto IV - Um archeiro, durante as tréguas, fere Menelau com uma seta. Agamémnon exorta os Gregos a combater.

Canto V - Inicia-se uma primeira batalha em que Diomedes se distingue pelas suas explorações.

Canto VI - Heitor, novamente em Tróia, reprova a covardia de Páris.

Canto VII - Heitor luta contra Ajax até à morte sem resultado. No dia seguinte, Gregos e Troianos fazem tréguas para enterrar os mortos.

Cantos VIII - Trava-se uma segunda batalha em que os Gregos são repelidos pelos Troianos.

Canto IX - Os Gregos enviam uma embaixada a Aquiles. Ajax, Ulisses e Fénix tentam acalmá-lo, em vão.

Canto X - Ulisses e Diomedes fazem de noite o reconhecimento do campo dos Troianos e matam, para além de Risos e dos seus trácios, o espião Dólon. Por isso este canto é conhecido por Dolonia.

Canto XI - Terceira grande batalha, em que Agamémnon desempenha o papel principal. Derrota dos Gregos.

Canto XII - Os Troianos aproveitam o êxito para entrar no campo dos Gregos.

Canto XIII - Os Gregos contra-atacam e anulam o ataque dos Troianos.

Canto XIV - Hera consegue desviar a atenção de Zeus e a vitória começa a inclinar-se para os Gregos.

Canto XV - Zeus, desperto, envia Apolo a socorrer os Troianos. Apolo leva Heitor a avançar para os barcos dos Gregos.

Canto XVI - Aquiles empresta as suas armas a Pátroclo. Os Troianos julgam que é Ulisses e fogem. Mas Heitor mata Pátroclo.

Canto XVII - Gera-se luta em torno do corpo de Pátroclo e os Gregos conseguem finalmente levá-lo. Mas Heitor tinha-lhe retirado as armas de Aquiles.

Canto XVIII - Aquiles, ao saber da morte do amigo, exprime o seu desgosto e promete vingá-lo. A mãe, Tétis, faz com que Vulcano lhe fabrique armas prodigiosas. É aqui que aparece a famosíssima descrição do escudo de Aquiles.

Canto XIX - A escrava Briseida é restituída a Aquiles e o diferendo entre ele e Agamémnon fica sanado. Todos se preparam para combater, contando já com Aquiles.

Canto XX - Vai travar-se a quarta batalha da Ilíada; esta vai ser a batalha decisiva e será favorável aos gregos.

Os deuses, inicialmente, também entram na batalha, mas depois retiram-se. Aquiles semeia a morte entre os Troianos.

Canto XXI - Os rios Xanto e Simoente intervêm em favor dos Troianos, e perseguem Aquiles com as suas águas, mas Vulcano fá-los recuar com o fogo e os Troianos têm de se refugiar dentro das muralhas.

Canto XXII - Heitor fica só diante da muralha e, ao encontrar Aquiles, primeiro, foge de medo, mas depois resiste e é morto por ele. Aquiles arrasta o cadáver de Heitor perante o desespero dos sitiados.

Canto XXIII - Aquiles celebra os funerais de Pátroclo com jogos, corridas e combates.

Canto XXIV - Zeus inspira a Príamo que vá à tenda de Aquiles pedir o corpo do seu filho Heitor. Aquiles, comovido pela recordação do seu próprio pai Peleu, restitui-lhe o cadáver. A epopeia acaba com as exéquias de Heitor no meio das lamentações de Andrómaca, Hécuba e Helena.

 

*A Ilíada, postos de lado os problemas sobre a sua origem, é um poema que vale pela beleza do conjunto, e pela arte, original e genuinamente grega - a arte homérica. Merecem especial estudo as comparações, os caracteres, o maravilhoso, e, numa palavra, o estilo.

2- Odisseia de Homero

Uma das duas epopeias atribuídas ao poeta grego Homero. Como o da Ilíada, o enredo da Odisseia está relacionado com as lendas da Guerra de Troia.

Depois da tomada de Troia, graças ao estratagema do cavalo de madeira, os vencedores incendiaram-na e voltaram à Grécia.

No seu regresso, os chefes gregos tiveram sorte vária. Agamémnon foi assassinado pela mulher na sua chegada a Argos; Ulisses errou pelos mares fora até conseguir chegar a Ítaca, dez anos depois...  É precisamente este vaguear de Ulisses o assunto da Odisseia.

Tal como a Ilíada, a Odisseia consta de 24 cantos, divididos em cinco partes (I-IV; V-VIII;IX-XII; XIII-XVI; XVII-XXIV).

Canto I - Ulisses, perdido no seu regresso de Troia, é retido na ilha da ninfa Calipso. Em Ítaca, haviam-se instalado no seu palácio, os pretendentes à mão de Penélope sua esposa. Minerva aconselha Telémaco, filho de Ulisses, a partir à sua procura.

Canto II - Contra a vontade dos pretendentes à mão da sua mãe, Telémaco faz-se à vela para o Peloponeso.

Canto III - Em Pilos, informa-se junto de Nestor e ruma a Esparta.

Canto IV - Em Esparta recebe o melhor acolhimento de Menelau e Helena; mas em Ítaca os pretendentes preparam-lhe uma emboscada. (Esta parte da epopeia, denominada Telemaquia, é considerada por alguns críticos como dispensável na economia do poema, concluindo que ela terá sido acrescentada ao plano inicial deste).

Canto V - Zeus ordena a Calipso que deixe partir Ulisses, e este navega durante dezoito dias. Mas Neptuno desencadeia uma tempestade que o faz naufragar. A custo consegue chegar a terra, na foz de um rio, na ilha dos Feácios.

Canto VI - Nausica, filha do rei Alcino, com as suas companheiras, encontra-o e leva-o para o palácio do pai.

Canto VII - Ulisses é recebido com simpatia no sumptuoso palácio e conta as suas aventuras sem se dar a conhecer.

Canto VIII - Alcino dá um banquete durante o qual um aedo canta episódios da Guerra de Troia. Ulisses, incapaz de conter a emoção, identifica-se. O rei convida-o a contar as suas viagens.

Canto IX - Ulisses conta como depois da sua partida de Troia foi arrastado por uma tempestade para o país dos Lotófagos. Daí foi parar à ilha dos Ciclopes onde escapou com astúcia e coragem à crueldade de Polifemo.

Canto X - Embarca de novo e depois de abordar a Ilha de Éolo e passar pela terra dos antropófagos Lestrígones, estadia na ilha da maga Circe.

Canto XI - Dirige-se à terra dos Cimérios, onde habitam os mortos, para consultar o adivinho Tirésias. Aí encontra as sombras dos seus antigos companheiros.

Canto XII - Depois de escapar à sedução das sereias, passa pelos escolhos de Cila e Caríbdis. Mais tarde, os seus companheiros são fulminados por pretenderem roubar as novilhas do Sol. Nova tempestade atirou-o para a Ilha Ogígia, onde morava a ninfa Calipso que o reteve durante sete anos.

Canto XXI - Encantado com as suas narrativas, Alcino manda os seus hábeis marinheiros levar Ulisses a Ítaca. Minerva aparece-lhe, na praia, recomenda-lhe prudência e dá-lhe o aspeto de mendigo.

Canto XIV - Ulisses dirige-se a uma das suas propriedades onde encontra o velho porqueiro Eumeu. Mesmo sem dizer quem é, Ulisses é recebido cordialmente.

Canto XV - Entretanto Telémaco regressa a Ítaca, vindo de casa de Menelau, e dirige-se também para casa do porqueiro Eumeu.

Canto XVI - Ulisses dá-se a conhecer ao filho e os dois preparam-se para escorraçar do palácio os pretendentes.

Canto XVII - Quando Ulisses chega ao palácio como um mendigo, recebe insultos dos pretendentes, mas Penélope protege-o.

Canto XVIII - Tem de se defender do mendigo Irós e sofrer humilhações várias.

Canto XIX - Numa breve conversa com Penélope, faz-lhe ter esperança no regresso de Ulisses. A velha serva Euricleia reconhece-o, mas Ulisses ordena-lhe que não diga nada.

Canto XX - No palácio os pretendentes dissipam os bens de Ulisses em sumptuosos banquetes numa festa em honra de Apolo.

Canto XXI - Penélope finge que desposará aquele dos pretendentes que conseguir dobrar o arco de Ulisses; nenhum o consegue. Ulisses então apodera-se do arco e dobra-o com toda a facilidade.

Canto XXII - Ulisses dá-se a conhecer e, dirigindo as setas para os pretendentes, ajudado por Telémaco, massacra-os a todos.

Canto XIII - Dissipadas todas as dúvidas de Penélope, prudente e incrédula, contam um ao outro as suas desventuras.

Canto XXIV - No dia seguinte Ulisses dirige-se a casa de Laertes, seu velho pai. Minerva apazigua os familiares dos pretendentes mortos.

 

*A Odisseia, do ponto de vista da unidade, é mais completa que a Ilíada, embora a sua estrutura seja menos simples. A Odisseia é uma epopeia de viagens e aventuras serenas, enquanto a Ilíada é uma epopeia guerreira. De salientar a marcação dos caracteres das personagens de primeiro plano.  Ulisses distingue-se pela sua coragem, pela sua prudência e destreza. Nada o faz demover do seu intento.  Penélope é prudente e perseverante como Ulisses. A sua fidelidade tornou-se proverbial. Telémaco é prudente como o pai, mas orgulhoso e impulsivo.

 

Virgílio - poeta latino

 

Publius Vergilius Maro nasceu em 70 a. C., em Andes, perto de Mântua, de família modesta (o pai era lavrador) mas que lhe proporcionou uma boa instrução. Estudou inicialmente em Cremona e depois em Nápoles e Milão, onde terá composto os pequenos poemas, como Culex e Copa, que lhe são atribuídos. Apresentado ao governador da Gália Cisalpina, Polião, compôs as Bucólicas (41-39 a. C.). Através de Mecenas conheceu Horácio. Aconselhado por Mecenas, e para servir os projetos de Augusto, que desejava fazer renascer na Itália a agricultura e os velhos costumes, produziu as Geórgicas.

Empreendeu depois a composição da Eneida, sempre com todo o apoio e interesse de Augusto. Para acabar este poema quis conhecer a Grécia. Morreu em Brindes (19 a. C.) no retorno dessa viagem. Tinha 51 anos.

A Eneida, inacabada, foi publicada pelos seus amigos que, felizmente, não a destruíram como era sua vontade. Virgílio, cisalpino e quase celta, é incontestavelmente o poeta mais perfeito da literatura romana. A sua doçura e a sua melancolia sonhadora são quase exceção na história do espírito latino.

3-Eneida de Virgílio

Poema épico em 12 cantos, da autoria do poeta latino Virgílio (Publius Vergilius Maro). É a narrativa das aventuras lendárias do troiano Eneias, filho de Anquises e de Vénus, antepassado dos Romanos, de quem a família de Júlio César se dizia descendente.

No dia seguinte à tomada de Troia, Eneias leva consigo os deuses de Ílio (Troia) - tem a missão divina de fundar uma nova pátria, que será um dia a cidade de Rómulo.

As viagens de Eneias antes de chegar à Itália e os combates que tem de travar com os Italianos antes de casar com a filha do rei latino, são as grandes linhas do poema. A imitação homérica é evidente. Sainte-Beuve dizia que os seis primeiros cantos são uma Odisseia e os seis últimos, uma Ilíada.

Mas o centro e a alma da epopeia é Roma e o pensamento constante de Virgílio é o de celebrar as origens e a história da cidade eterna.

O verso do poema é o hexâmetro dactílico. Há um certo número de versos incompletos que Virgílio não teve tempo de ultimar.

 

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