Recursos Expressivos

 

 

Os recursos expressivos tornam a linguagem mais expressiva, permitindo condensar múltiplas ideias em poucas palavras. Deste modo, o escritor /o poeta, sugere ao leitor várias interpretações para os seus textos / poemas e leva-o, por vezes, a associá-los a outros textos ou temas do conhecimento geral.

 

Alegoria

Metáfora desenvolvida de modo a sugerir, por alusão, uma ideia diferente; geralmente, o autor pretende apresentar uma verdade moral ou espiritual subjacente à ação.

N’Os Lusíadas

A alegoria da ilha dos Amores

(Ilha = recompensa, paraíso)

C. IX, 52-91

C. X, 1-7; 10-142

Aliteração

Repetição de um som ou sílaba no início, no meio ou no fim das palavras; utilizada para criar um efeito auditivo de harmonia ou de onomatopeia.

N’Os Lusíadas

Que um fraco rei faz fraca a forte gente C. III, 138.8

Alusão

Referência breve a uma pessoa ou circunstância supostamente conhecida do leitor, de modo a alargar o saber para além do próprio texto.

N’Os Lusíadas

D’água do esquecimento C. I, 32.7 = Rio Letes que, segundo a lenda, se situava no Inferno pagão, cujas águas tiravam a memória aos que dela bebessem.

Anáfora

Repetição de uma ou mais palavras no início de dois ou mais versos.

N’Os Lusíadas

Dai-me agora um som alto e sublimado,

................................................................

Dai-me ua fúria grande e sonorosa,

................................................................

Dai-me igual canto aos feitos da famosa C.I, 4.5, 5.1, 5

Anástrofe

Processo que consiste na inversão da ordem habitual das palavras, de forma a pôr em relevo elementos da frase. Neste caso, a inversão é menos violenta do que no Hipérbato.

Que sejam, determino, agasalhados (Os Lusíadas, I, 29, v. 5

Antítese

Expressão de ideias opostas numa só frase; tese significa afirmação, anti- contra.

N’Os Lusíadas

A pequena grandura de um batel

C. VI, 74.6

Antonomásia

Identificação de alguém através de um epíteto ou de qualquer outro termo que não seja o seu nome próprio.

N’Os Lusíadas

Cessem do sábio Grego e do Troiano C. I, 3.1 (Sábio Grego: Ulisses; Troiano: Eneias)

Apóstrofe

Interpelação de uma pessoa, entidade ou coisa personificada, no meio de uma narração, por exemplo, a invocação às Musas na poesia. Pode ser utilizado para chamar a atenção do leitor, mudando de assunto.

N’Os Lusíadas

"Tu só, tu, puro Amor, com força crua, III, 119.1

Assíndeto

Sequência de palavras ou frases às quais se omitiu a conjunção e, substituída por vírgula, condensando várias ideias numa só frase, possibilitando, por vezes, diversas interpretações.

N’Os Lusíadas

Fere, mata, derriba, denodado; C. III, 67.3

Assonância

Repetição dos mesmos sons vocálicos em palavras muito próximas.

N’Os Lusíadas

As armas e os barões assinalados C.I, 1.1

Comparação

Método de aproximação de duas pessoas, ideias ou circunstâncias de modo a evidenciar as suas semelhanças ou diferenças. Distingue-se da metáfora pela utilização de alguns nexos interfrásicos: como, tal como, assim como.

N’Os Lusíadas

Assi como a bonina, que cortada C. III, 134

Qual o reflexo lume do polido

Espelho de aço ou de cristal fermoso C. VIII, 87.1-2

Elipse

Supressão de palavras que facilmente se adivinham, tendo em consideração o contexto.

N’Os Lusíadas

Agora, pelos povos seus vizinhos,

Agora, pelos húmidos caminhos. C. II, 108.7-8 (Agora, pergunta pelos povos seus vizinhos)

Eufemismo

Suavização de uma ideia desagradável ou cruel através de palavras ou expressões selecionadas. Pode confundir-se com a perífrase.

N’Os Lusíadas

Tirar Inês ao Mundo determina C. III, 123.1 (=matar Inês)

Hipérbato (cf. Anástrofe)

Inversão violenta dos elementos da frase, alterando a ordem sintática normal. Utiliza-se para enfatizar o discurso ou para imitar a estrutura sintática do latim. Os versos de Os Lusíadas são formados por uma série de hipérbatos.

N’Os Lusíadas

A Deus pedi que removesse os duros

Casos, que Adamastor contou futuros. C. V.60.7-8

Hipérbole

Expressões que exageram intencionalmente o pensamento. Utiliza-se para enfatizar o discurso. É um dos recursos expressivos mais utilizados n’Os Lusíadas.

N’Os Lusíadas

Agora sobre as nuvens os subiam

As ondas de Neptuno furibundo;

Agora a ver parece que desciam

As íntimas entranhas do Profundo. C.VI, 76.1-4

Imagem

Impressão mental ou representação de um animal, pessoa ou coisa que permite criar imagens nítidas, através de uma linguagem metafórica.

N’Os Lusíadas

O mar se via em fogos acendido C.II, 91.6

Ironia

Recurso, que segundo Aristóteles é um disfarce que conduz à essência da verdade, pois as palavras adquirem um significado diferente daquele em que são empregues.

N’Os Lusíadas

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores

O vosso Tejo cria valerosos,

Que assim sabem prezar, com tais favores,

A quem os faz, cantando, gloriosos! C.VII, 82.1-4

(Camões ironiza a incompreensão dos seus compatriotas)

Metáfora

Comparação abreviada, implícita, sem a partícula comparativa como, que permite identificar uma coisa com outra através de um processo imaginativo.

Tomai as rédeas Vós do Reino vosso / (Tomai as rédeas = governai) C. I, 15.3

Metonímia

Substituição do nome dum objeto ou duma ideia por outro relacionado com ele. Assim, dizer a coroa ou o cetro em vez de o soberano; a cruz e a espada em vez de a religião e o exército; os copos em vez de as bebidas alcoólicas são exemplos de metonímia.

N’Os Lusíadas

De Portugal, armar madeiro leve / (madeiro = nau, feita de madeira) C. VI, 52.3

Onomatopeia

Palavras cujo som evoca um determinado objeto ou ideia, muitas vezes, são sons da natureza. Trata-se, portanto, da utilização de palavras imitativas para alcançar um efeito expressivo. Pode coincidir com a aliteração.

N’Os Lusíadas

Bramindo, o negro mar de longe brada C. V, 38.3

Perífrase

Consiste em dizer em muitas palavras, o que poderia ser dito apenas numa.

N’Os Lusíadas

Mas assim como os raios espalhados

Do Sol foram no mundo, e num momento

Apareceu no rúbido Horizonte

Na moça de Titão a roxa fronte, C. II, 13.5-8 (= Aurora, deusa; aurora, nascer do dia)

Personificação / Prosopopeia

Atribuição de características humanas a abstrações, animais, ideias ou objetos inanimados.

N’Os Lusíadas

A figura do Gigante Adamastor, personificação de um cabo, que aparece a falar.

... e Guadiana

Atrás tornou as ondas de medroso C. IV, 28.3-4

Pleonasmo

Repetição desnecessária da mesma ideia utilizando muitas palavras.

N’Os Lusíadas

Vi, claramente visto, o lume vivo C. V, 18.1

Sinédoque

Consiste em se tomar a parte pelo todo ou o todo pela parte.

É uma espécie de metáfora, por exemplo, dizer velas por navios ou cabeças por animais; na expressão o pão nosso de cada dia, pão significa não apenas alimento, mas todo o sustento duma maneira geral. Este recurso expressivo tem ainda algumas semelhanças com a perífrase e a metonímia.

N’Os Lusíadas

Vós, ó novo temor da Maura lança, (canto I,6.5), (= poderio militar dos mouros)

Sinestesia

Associação de sensações recebidas por vários sentidos, por exemplo, uma nota azul (ouvido, vista) ou um verde frio (vista, tato). São expressões sinestésicas.

N’Os Lusíadas

As areias ali de prata fina; C. VI, 9.2

(vista: prateado; tato: textura fina)

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