Ilha dos Amores

Clica num dos episódios:

         Ilha dos amores - preparativos

        Ilha dos amores - Aventura de Lionardo

 

O episódio da Ilha dos Amores ocupa uma quinta parte do poema. Encontra-se colocado estruturalmente na convergência de todos os diversos níveis de ação presentes na obra:

 

 -a viagem dos marinheiros;

 -a intriga dos deuses;

 -a conceção da estrutura do mundo (cosmos);

 -a visão da história passada e futura de Portugal (e do mundo de então);

 -a interpretação filosófica do significado da ação dos homens no mundo;

 -a crítica da situação factual da política do tempo de Camões.

    Fácil será fazer uma extrapolação e dizer que a Ilha é a visão paradisíaca do verdadeiro Portugal ou que ela representa uma utopia de feição idealista: o lugar da recompensa dos homens após o longo sofrimento, privação e risco da demorada viagem. Mas convém notar que, com a prática erótica que essa Ilha faculta aos homens e ao Gama, é feito, paralelamente, o discurso da revelação da sabedoria histórica e cosmogónica.

    Para além de considerações de carácter esotérico (secreto, misterioso), o que o poema nos dá é de facto a prática e o apogeu do amor físico como sendo a chave textual para a abertura do conhecimento.Tais propostas são manifestamente heréticas (ofensivas) relativamente às doutrinas quer neoplatónicas quer católicas.

Simbologia do episódio da Ilha dos Amores

   

    A Ilha dos Amores simboliza o reconhecimento dos feitos do povo português através de uma recompensa – a celebração de um casamento cósmico entre as ninfas e os portugueses, através do qual Camões os eleva a um estatuto de deuses, é como se se dissesse que quem pratica feitos de tal magnitude, não esquecendo os sacrifícios causados pelos homens inimigos e pelos deuses, principalmente Baco, que os vai atraiçoando no decorrer da sua jornada, merece a imortalidade própria da condição divina «Por feitos imortais e soberanos/O mundo cos varões que esforço e arte/Divinos os fizeram, sendo humanos».

 

    Vénus, deusa do Amor e da Beleza, é assim a deusa que se identifica com estes heróis e os vai salvando dos perigos, cria a "Ilha dos Amores", auxiliada por Cupido, seu filho, recompensando os portugueses pelo seu esforço, bravura, persistência e dedicação na tarefa da superação da humanidade.

 

    Na ilha "fresca e bela" encontram-se ninfas à espera, tendo os marinheiros a oportunidade de se deleitar com elas que os acolhem, depois de jogos de sedução, dividem-se entre o prazer sexual e o Amor. É aliás este Amor que existe entre Vénus e os Portugueses. E, por isso, dá-se, nesta Ilha, um "casamento”,  a união entre os descendentes de Luso e Vénus onde "Se prometem eterna companhia, / Em vida e morte, de honra e alegria.". Deste modo, Vénus reconhece os Portugueses como um povo nobre e concede-lhes como que um estatuto semidivino e eterna proteção.

   

    A viagem, mais do que a exploração dos mares, exprime a passagem do desconhecido para o conhecimento, não só a nível físico, mas também a nível espiritual/interior. Como diz Jorge de Sena,  estamos perante «a recolocação do Amor, do verdadeiro Amor, como centro da Harmonia do Mundo. A Ilha é uma catarse total (purificação), não apenas de todos os recalcamentos, mas das misérias da própria História, e das misérias da vida no tempo de Camões e fora dele (...) Ao desmistificar os deuses, Camões faz-nos assumir a fantasia como fantasia, dando aos homens a dignidade máxima de terem sido humanos, do mesmo modo que aponta aos homens a maneira de se divinizarem».

 

    Na Ilha dos Amores, os prazeres concedidos aos portugueses inscrevem-se tanto no nível material como no espiritual do Herói. Por um lado, ao nível material temos as recompensas do amor físico e o banquete oferecidos por Tétis e pelas restantes ninfas. Por outro lado, o nível espiritual reporta-se à apresentação que Tétis faz da Máquina do Mundo a Vasco da Gama. Este último momento é de grande importância já que apenas aos deuses era possível a visualização do Universo. A ambição da descoberta de novas terras proporciona aos nautas esta honra, símbolo de todas as compensações que os Descobrimentos trazem ao Homem.

   

    Ao contrário dos episódios da Inês de Castro e do Adamastor, este é o episódio da Epopeia e um exemplo raro da obra camoniana, em geral, em que existe a plenitude amorosa, onde existe o prémio e não o castigo por amor. É através do amor físico que os navegadores interagem com as ninfas imortais, depois das provas que representam o amor pela pátria, a devoção e a superação das dificuldades que os tornam também divinos, provando assim que nada resiste à força do amor.

 

    Camões coloca neste episódio toda a sua imaginação e, utilizando elementos do Renascentismo e do Humanismo, confere aos portugueses a possibilidade de realização completa, sem as limitações e as contradições impostas pela Natureza. E assim os navegadores conseguem alcançar a imortalidade. Mas isso também se aplica ao poeta que, ao compor esta epopeia e ao dedicá-la ao herói português, dignifica os seus feitos, permanecendo vivo não fisicamente, mas espiritualmente, através desta e de muitas outras obras.

    No Canto IX, os nautas ao serem recebidos pelas ninfas significa, entre outras coisas, a confirmação dos receios de Baco: de facto, os navegantes cometeram atos tão grandiosos que se tornam amados por deusas; e, de certo modo, divinizam-se também.

 

    Em Os Lusíadas a revelação súbita da nudez desperta o instinto para o qual o pecado não existe. É em plena inocência, como se o tabu bíblico nunca tivesse existido, que se realizam as núpcias, sem restrições. Depois desta recuperação da inocência e desta abolição da consciência do Bem e do Mal, os homens recuperam também a imortalidade. Como amantes das ninfas imortais, tornam-se eles próprios divinos.

    A mulher, intermediária da serpente maléfica, fizera Adão ser sujeito à morte. Na Ilha dos Amores é também a mulher (agora no plural) que liberta os homens da lei da morte.

 

Evidentemente há uma entrega aos prazeres da carne, mas é um prazer fruto do Amor, que preenche a alma e purifica. O Amor que deifica homens e humaniza deuses, unindo-os num só ser, fazendo com que entre eles não haja mais distinção, deixando criaturas humanas e divinas num mesmo patamar, numa mesma existência.

   

    Marinheiros e ninfas estavam todos entregues ao puro amor. O sentimento é tão intenso, o afago é tamanho, que os enamorados “se prometem eterna companhia, / em vida e morte, de honra e alegria”, daí que, mesmo inundados de lascívia, o relacionamento amoroso entre as ninfas e os portugueses não representa uma orgia desenfreada e desmedida.

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