Luís de Camões e Os Lusíadas

 

Filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá e Macedo, Luís Vaz de Camões (1524?-1580) terá feito os estudos literários e filosóficos em Coimbra. Os dados biográficos mais importantes podemos colhê-los na sua vastíssima obra poética. Por ela se conhecem os seus amores, a vida boémia e arruaceira, as alegrias e frustrações, a pobreza e as inquietações transcendentais.

Sabe-se que, entre 1549 e 1551, participou numa expedição ao norte de África, talvez a Ceuta, onde, num acidente de guerra, perdeu um olho.

 De regresso a Lisboa, é preso, em 1552, em consequência de uma rixa com um funcionário da Corte, e metido na cadeia do Tronco. Em 1553, saiu, inteiramente perdoado pelo agredido e pelo rei, conforme se lê numa carta enviada da Índia, para onde partiu nesse mesmo ano, quer para mais facilmente obter perdão, quer para se libertar da vida lisboeta, que o não contentava. Segundo alguns leitores, terá composto por essa altura o primeiro canto de Os Lusíadas.

Na Índia não foi feliz. Goa dececionou-o, como se pode ler no soneto Cá nesta Babilónia donde mana. Tomou parte em várias expedições militares.  Passa-se depois para Macau, onde exerce o cargo de provedor-mor de defuntos e ausentes, e escreve na gruta, ainda hoje reconhecida pelo seu nome, mais seis Cantos do famoso poema épico. Volta a Goa, naufraga na viagem na foz do Rio Mecom, mas salva-se, nadando com um braço e erguendo com o outro, acima das vagas, o manuscrito da imortal epopeia, facto documentado no Canto X, 128.

Nesse naufrágio viu morrer a sua "Dinamene", rapariga chinesa que se lhe tinha afeiçoado. A esta fatídica morte dedicou os famosos sonetos do ciclo Dinamene, entre os quais se destaca Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste. Em Goa sofre caluniosas acusações, dolorosas perseguições e duros trabalhos, vindo Diogo do Couto a encontrá-lo em Moçambique, em 1568, "tão pobre que comia de amigos", trabalhando n' Os Lusíadas e no seu Parnaso, "livro de muita erudição, doutrina e filosofia", segundo o mesmo autor.

Em 1569, após 16 anos de desterro, regressa a Lisboa, tendo os seus amigos pago as dívidas e comprado o passaporte. Só três anos mais tarde alcança dar a publicidade à primeira edição de Os Lusíadas, que lhe valeu de D. Sebastião, a quem era dedicado, uma tença anual de 15000 réis pelo prazo de três anos e renovado pela última vez em 1582 a favor de sua mãe, que lhe sobreviveu. Os últimos anos de Camões foram amargurados pela doença e pela miséria. Reza a tradição que se não morreu de fome foi devido à solicitude de um escravo Jau, trazido da Índia, que ia de noite, sem o poeta saber, mendigar de porta em porta o pão do dia seguinte. O certo é que morreu em 10 de junho de 1580, sendo o seu enterro feito a expensas de uma instituição de beneficência, a Companhia dos Cortesãos. Um fidalgo letrado seu amigo mandou inscrever-lhe na campa rasa um epitáfio significativo: "Aqui jaz Luís de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente, e assim morreu."

 

Em síntese....

1524/5? Nasce Luís Vaz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá.

1542 Até quando fica a estudar em Coimbra, primeiro no Colégio de Todos os Santos e mais tarde na Universidade de Coimbra.

1545 Consta que foi neste ano que Camões iniciou Os Lusíadas.

1547 Viaja até Ceuta onde permanece durante 2 anos e onde perde o seu olho direito em combate.

1550 Regressa a Lisboa.

1553 A 24 de Março embarca rumo à Índia passando por Goa.

1555 Colabora em festas de investidura de Francisco Barreto no cargo de governador da Índia com o Auto do Filodemo (2º Auto). Junto de um seco, fero, estéril monte.

1559 Diz-se que, regressando de Macau a Goa, salva o seu épico a nado após um naufrágio nos baixios do mar da China.

1567 Chega a Sofala, na costa este de África, com a ajuda de Pedro Barreto, onde fica durante 2 anos.

1569/70 Chega a Lisboa após a sua viagem à Índia.

1572 São publicadas duas edições d´Os Lusíadas

1580 10 junho morre Luís Vaz de Camões. 

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Os Lusíadas

Os Lusíadas são o famoso poema épico de Camões publicado em 1572.

O sonho de todo o bom poeta do século XVI era a criação de uma epopeia, à imitação de Homero e Virgílio. Assunto de interesse nacional e mesmo universal não faltava: os Descobrimentos. Era necessário imortalizá-los. Antes de Camões, o italiano Angelo Policiano ofereceu-se a D. João II para o fazer; Garcia de Resende, no prólogo do Cancioneiro Geral, insiste na necessidade da criação de uma epopeia; Diogo de Teive e João de Barros chegaram a projetar epopeias como forma de imortalizar os Descobrimentos; António Ferreira encorajou Pêro de Andrade Caminha a escrever versos sobre os feitos portugueses. Estava criada a circunstância propícia, só faltava o poeta de génio. Esse foi Camões.

O acontecimento central da obra é o descobrimento do caminho marítimo para a Índia. Para o seu tratamento literário, Camões inventou uma fábula mitológica onde os deuses, como se fossem humanos, entram em conflito por causa da viagem de Vasco da Gama. Gera-se uma verdadeira intriga, no fim da qual os homens são mitificados. Ao mesmo tempo, são evocadas as glórias da nacionalidade, com admirável engenho, na narrativa do próprio Gama, verdadeira síntese da História pátria.

Durante muito tempo não se compreendeu a função mitificadora da presença da mitologia pagã e até houve censura ao poeta por este facto. Hoje, porém, compreende-se que é dela, em grande parte, que depende a coesão narrativa e, em simultâneo, a diversidade, a vida e a criatividade patente na obra.

Os Lusíadas encontram-se divididos em dez Cantos e seguem, globalmente, a Eneida de Virgílio na estrutura apresentada: uma Proposição, uma Invocação, uma Dedicatória (que a Eneida não tem) e a Narração iniciada "in medias res", ou seja, quando a ação principal está já em curso. A obra segue o Orlando Furioso de Ludovico Ariosto quanto ao uso do verso decassilábico em oitava-rima (isto é, a estrofe de oito versos e estrutura rimática abababcc).