Epopeia

Os Lusíadas são uma epopeia de estrutura e ideologia clássicas.

A epopeia ou poema épico pertence ao modo narrativo. Tem as suas mais notáveis manifestações literárias na antiguidade clássica de que são exemplo a Odisseia e a Ilíada, do poeta grego Homero, e a Eneida, do poeta latino Virgílio. Epopeia é uma narrativa, em verso, em estilo elevado, celebrando e glorificando os feitos de um povo ou de heróis (reais ou lendários). As personagens das epopeias, que podem ser individuais ou coletivas, representam a História e a cultura de um povo. Apesar do seu fundo histórico, a epopeia não é uma narrativa histórica.

Os elementos da epopeia:

  - a AÇÃO

Deve ter grandeza/solenidade, destacar acontecimentos com interesse universal e possuir unidade (fio condutor da narração), deve ser a expressão do heroísmoO assunto, numa epopeia, deverá, por isso, ter um caráter excecional. Nem todas as ações são suscetíveis de serem tratadas de forma épica; é necessário que, no entendimento do narrador (e do seu público), essas ações se distanciem dos acontecimentos vulgares, assumam um caráter de excecionalidade.

Nas epopeias primitivas os feitos narrados são de carácter lendário, embora essas ficções tenham sempre um fundo histórico. O início da narração dos acontecimentos deve ser “in media res”, ou seja, quando a ação se encontra numa fase adiantada.   A Ilíada narra a guerra entre gregos e troianos, que se prolonga durante dez anos e termina com a vitória dos gregos. Na Odisseia, o herói, Ulisses, depois de terminada a guerra de Troia, procura voltar para casa, a ilha de Ítaca, onde era rei, mas durante a viagem de barco vê-se envolvido em numerosas aventuras, acabando por chegar ao fim de dez anos. A Eneida narra as viagens de Eneias pelo Mediterrâneo, depois da destruição de Troia, em busca de um lugar para edificar uma nova cidade. Terá encontrado esse lugar em Itália, estando, segundo a lenda, na origem de Roma.

Em Os Lusíadas a ação principal é a viagem marítima de Vasco da Gama à Índia. A inclusão de pequenas narrativas (ex: episódio do Gigante Adamastor ou episódio de Inês de Castro) reais ou imaginárias serve para embelezar e enriquecer a ação.

  - as PERSONAGENS

Deve existir um herói, um ser de exceção, um ser que, pela sua origem, pelas suas características, se distancie, se imponha aos seus semelhantes, pouco importando que se trate de um indivíduo ou de uma coletividade (herói individual ou herói coletivo).  

Na Ilíada[1] e na Odisseia[2], escritas no século VI a.C., o herói é individual: num caso, Aquiles; no outro, Ulisses. Já na Eneida[3] de Virgílio há uma certa ambiguidade: o herói parece ser individual, Eneias, mas na realidade o objetivo do poema é exaltar o povo romano.

N’ Os Lusíadas o herói é, como o título indica, coletivo — o povo português. (herói coletivo), representado simbolicamente na figura do comandante das naus, Vasco da Gama;

[1] Ilíada – Poema épico, atribuído a Homero, escrito no séc. VI a.C.

[2] Odisseia – Outro poema épico do séc. VI a.C., igualmente atribuído a Homero.

[3] Eneida – Poema épico, escrito por Virgílio no séc. I a.C.

  - o MARAVILHOSO

Deve caracterizar-se pelas  intervenções de entidades sobrenaturais (os deuses). Camões imaginou um conflito entre os deuses pagãos: Baco opõe-se à chegada dos portugueses à Índia, pois receia que o seu prestígio seja colocado em segundo plano pela glória dos portugueses, enquanto Vénus, apoiada por Marte, os protege.

            Pode parecer estranho que Camões incluísse num poema destinado a exaltar um povo cristão os deuses pagãos, mas algumas razões permitem compreender essa atitude:

                1- Como vimos, a simples narrativa da viagem seria algo monótona, tanto mais que Vasco da Gama e os seus marinheiros têm um caráter rígido, quase inumano: são determinados e inflexíveis, imunes às hesitações, à dúvida, às angústias. Não há ao nível da viagem qualquer conflito. Para introduzir o necessário dramatismo na narrativa, Camões teve que imaginar um conflito externo, o conflito entre Vénus e Baco.

                2- Os poemas épicos renascentistas são epopeias de imitação e como tal sujeitas a regras estritas. Uma dessas regras impunha ao poeta a introdução de episódios maravilhosos, envolvendo quase sempre deuses da mitologia greco-latina, à semelhança do que acontecia nos poemas homéricos ou na Eneida.

                3- Finalmente, o recurso aos deuses pagãos é mais uma forma de o poeta engrandecer os feitos dos portugueses. Nas suas intervenções, os deuses frequentemente referem-se-lhe de forma elogiosa. Além disso, o simples facto de a disputa entre os deuses ter como objeto os portugueses é já uma forma indireta de os exaltar.

  - a FORMA

Deve possuir uma determinada estrutura  e partes constituintes.

                                                        Na sua ESTRUTURA EXTERNA (formal, sem olhar ao conteúdo), o poema apresenta-se com:

      - um título - Os Lusíadas;

      - dez cantos (de mais ou menos 110 estrofes cada, sendo o X o mais longo);

      - estrofes, constituídas por oito versos cada (oitavas);

      - rima nas estrofes: (a,b,a,b,a,b,c,c) rima cruzada nos seis primeiros versos e os dois últimos são emparelhados;

      - versos de dez sílabas métricas (decassílabos), geralmente com acento rítmico na 6ª e 10ª sílabas (heroicos), o que lhe confere um ritmo grave e vigoroso.

                                                        A sua ESTRUTURA INTERNA (desenvolvimento do assunto) integra:

      - a Proposição. É a primeira parte de Os Lusíadas onde é apresentado o sumário da obra. O poeta anuncia que vai cantar «...o peito ilustre Lusitano», isto é, os guerreiros e navegadores, os reis que permitiram a dilatação da Fé e do Império e todos os que, pelas suas obras, se imortalizaram. A Proposição é composta pelas três primeiras estrofes do canto I.

- a Invocação. Pedidos de ajuda do poeta para cantar com "um estilo grandíloco e corrente" aquilo a que se propôs. Os pedidos são dirigidos às Tágides - Ninfas do Tejo e do Mondego e a                                     Calíope - musa da poesia épica.

      - a Dedicatória. O poeta dedica o poema a D. Sebastião (I, 6-18) – novidade nas epopeias;

      - a Narração. O desenrolar da ação que inicia "in medias res" = meio da ação, (viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia ).

 

 

  A obra desenvolve-se em volta de quatro PLANOS fundamentais que se entrecruzam na narrativa, conseguindo a unidade de ação exigida pela epopeia.

      Plano da VIAGEM

acontecimentos ocorridos durante a viagem entre Lisboa e Calecut. É narrada sobretudo nos cantos I, II, V, VI, VII, VIII:    

Ø  partida;

Ø  peripécias da viagem;

Ø  paragem em Melinde;

Ø  chegada a Calecut;

Ø  regresso;

Ø  chegada a Lisboa.

Plano da HISTÓRIA DE PORTUGAL

  1- em Melinde, Vasco da Gama narra ao rei a História do seu país:   - início da nacionalidade , 1ª Dinastia e 2ª Dinastia até D. Manuel I.

          2- em Calecut, Paulo da Gama apresenta ao Catual episódios e personagens representados nas bandeiras das naus.

               3- a história posterior à viagem do Gama é-nos narrada através de profecias.

 

Plano da MITOLOGIA

 

O plano mitológico de Os Lusíadas  é apresentado pela intervenção de seres sobrenaturais - os deuses; são eles que contribuem para a evolução da ação. Alguns deuses opõem-se à conquista do objeto (descoberta do caminho marítimo para a Índia), outros favorecem-na. Baco é o principal oponente, e Vénus e Marte são os principais adjuvantes (apoiantes).      

Plano do POETA

 

Este plano diz respeito às considerações que o poeta faz, nomeadamente, no início e no fim dos cantos, revelando as suas opiniões, reflexões, críticas, lamentações e exortações. Numa epopeia, a intervenção do poeta deve ser reduzida.