A viagem de Vasco da Gama

O Oriente era conhecido pelos Europeus, que muito apreciavam os produtos exóticos de lá trazidos pelos comerciantes árabes, através das rotas do Levante.

Mas o contacto direto com as zonas produtoras da Índia, da Pérsia e da China, ricas em especiarias, sedas, tapetes, porcelanas, madeiras preciosas e outros objetos de luxo, tinha as suas rotas tradicionais bem estabelecidas.

O comércio a partir do mar Vermelho e do golfo Pérsico era monopolizado pelos mercadores muçulmanos, a quem as cidades italianas, que dominavam o Mediterrâneo (sobretudo Génova e Veneza), compravam a mercadoria, que depois se encarregavam de vender à Europa a peso de ouro.

Era um negócio de lucros imensos, que D. João II (1482-1495) desejava para si; evitar a concorrência dos Italianos e a resistência dos Árabes só era possível contornando a África pelo Sul, para alcançar a Índia por um caminho alternativo ao tradicional.

O sonho de D. João II foi retomado por D. Manuel I (1495-1521). D. Estêvão da Gama, capitão-mor da vila de Sines, fora o primeiro escolhido para a continuação dos descobrimentos da costa oriental africana, e para o empreendimento da Índia. Mas a sua morte fez com que o seu quarto filho, Vasco da Gama, se visse à frente do projeto com apenas 29 anos de idade.

A frota comandada por Vasco da Gama, simultaneamente almirante e embaixador do reino, encarregado de estabelecer relações diplomáticas e comerciais com o samorim de Calecute, partiu do Restelo a 8 de Julho de 1497. Era constituída por três naus: a S. Gabriel, comandada pelo chefe da expedição, a S. Rafael, comandada pelo seu irmão Paulo da Gama, e a Bérrio, dirigida pelo navegador Nicolau Coelho, além de uma pequena caravela com mantimentos.

A frota seguiu pelo alto mar, quase se aproximando do Brasil, fazendo aquilo que os marinheiros chamavam “a volta”, para evitar os ventos contrários da Costa Ocidental Africana, visto que levavam naus e não as ágeis e manobráveis caravelas.

O cabo da Boa Esperança, onde Camões imagina o encontro de Vasco da Gama com o gigante Adamastor, foi atingido em novembro e, a partir daí, a navegação fez-se pelo Índico. Muitos dos marinheiros estavam então atacados de escorbuto, doença terrível motivada pela carência de alimentos frescos, que minou a tripulação.

Durante a viagem ao longo da costa oriental de África, os marinheiros portugueses tiveram alguns encontros com nativos locais, que inspiraram o episódio de Fernão Veloso em Os Lusíadas.

Em Março de 1498, no porto da ilha de Moçambique, Vasco da Gama viu barcos árabes a carregar mercadorias, e quis beneficiar de vantagens semelhantes, o que acabou por desencadear manifestações de hostilidade do chefe local.

Mais tarde, em Mombaça, os portugueses tiveram um acolhimento semelhante, sofrendo a traição de um piloto negro, pelo que foram obrigados a usar a artilharia de bordo para escapar.

Finalmente, o sultão de Melinde recebeu muito bem o almirante português, visitou as naus, e colocou à sua disposição um excelente piloto árabe, que ajudou a conduzir a frota à costa do Malabar.

A cidade de Calecute foi alcançada em 20 de maio de 1498, concluindo-se assim a primeira ligação marítima, por via atlântica, entre a Europa e o Oriente. A primeira receção do samorim de Calecute foi favorável ao estabelecimento de relações comerciais entre a região e a Coroa portuguesa.

Todavia, a missão de Vasco da Gama, ficaria também marcada pela hostilidade dos mercadores árabes estabelecidos na zona, que temendo a concorrência, fizeram tudo o que estava ao seu alcance para sabotar as negociações do representante de Portugal.

Mas, Vasco da Gama, revelando-se excelente diplomata, acabou por conseguir um carregamento de especiarias que cobriu os gastos da expedição, quando regressou ao reino, recebeu excelentes recompensas régias.

Parecia então aberto ao comércio com Portugal, e permitiu a criação do Estado Português da Índia, mantido até finais do séc. XVI, sob a direção de vários Governadores e Vice-reis, representantes da Coroa portuguesa, entre os quais esteve o próprio Vasco da Gama.

O tráfico com o Oriente seria, durante quase todo o século XVI, um monopólio real.